UMA CIÊNCIA MODERNA

 

 

Na Grécia antiga, os pensadores estendiam-se em longas discussões para saber se as palavras imitam as coisas ou se os nomes são dados por pura convenção. Ou então mantinham calorosos debates sobre a própria organização da linguagem: ela se organiza, perguntavam eles, de acordo com a ordem existente no mundo, seguindo princípios que têm como referência as semelhanças ou as diferenças?

Também os antigos hindus são conhecidos pela sua agudeza no tratamento da linguagem verbal. Com referência do sânscrito (língua sagrada da Índia antiga), no século XIX, apareceram os sofisticados estudos de linguagem que os hindus tinham feito em épocas muito remotas. Os motivos pelos quais eles se interessavam pela linguagem eram religiosos – estabelecer pela palavra uma relação íntima com Deus – mas nem por isso seus estudos eram menos rigorosos.

Na idade Média, a reflexão sobre linguagem teve nos Modistae uma de suas manifestações relevantes. Eles procuraram construir uma teoria geral da linguagem, partindo da autonomia da Gramática em relação à Lógica. Cosideram, êntão, três tipos de modalidades (modus) manifestados pela linguagem natural: o modus essendi (de ser) o intelligendi (de pensamento) e o significandi (de significar).

Há um número enorme de fatos que mostram essa atenção que os homens de diferentes épocas sempre dedicaram à linguagem. Mas é só com a criação da Lingüística que essas manifestações da curiosidade do homem tomam a forma de uma ciência, com seu objeto e método próprios.

A Língüística é uma ciência recente: inaugurou-se no começo do século XX.

Não foi sem dificuldades que a reflexão sobre a linguagem conseguiu se impor como ciência. Para isso teve que demonstrar o apuro de seu método e a configuração precisa de seu objeto.

A  Lingüística definiu-se, com bastante sucesso entre as Ciências Humanas, como o estudo ciêntifico que visa descrever ou explicar a linguagem verbal humana.

O QUE É  – E O QUE NÃO É LINGÜÍSTICA

Há uma tendência em se identificar o estudo da linguagem com o estudo da gramática. A Lingüística, no entanto distingue-se da gramática tradicional, normativa. Ela não tem, como esta gramática, o objetivo de prescrever normas ou ditar regras de correção para o uso da linguagem. Para a Lingüística, tudo o que faz parte da língua interessa e é matéria de reflexão.

Mas não é qualquer espécie  de linguagem que é objeto de estudo da Lingüística: só a linguagem verbal, oral ou escrita. Os sinais que o homem produz quando fala ou escreve são chamados signos.  Ao produzir signos os homens estão produzindo a própria vida: com eles, o homem se comunica, representa seus pensamentos, exerce seu poder, elabora sua cultura e sua identidade, etc.

Os signos são fundamentais, pois dão ao homem sua dimensão simbólica: esta que o liga aos outros homens e à natureza, isto é, a sua realidade social e natural.

Há, além dos signos da linguagem verbal, muitas outras espécies de signos que povoam de linguagens a vida do homem: a pintura, a mímica, o código de trânsito, a moda, as linguagens artificiais, etc. Os signos, em geral, tanto os das linguagens não-verbais quanto os da linguagem verbal, são objetos de uma ciência geral dos signos: a Semiologia.

Os signos da linguagem verbal têm uma importância tão grande para a humanidade que merecem uma ciência só para si: a Lingüística.

O século XVII e o XIX

Na história da constituição da Lingüística há dois momentos-chave: o século XVII, que é o século das gramáticas gerais, e o século XIX, com suas gramáticas comparadas.

No século XVII, os estudos da linguagem são fortemente marcados pelo racionalismo. Os pensadores da época concentram-se em estudar a linguagem enquanto representação do pensamento  e procuram mostrar que as línguas obedecem princípios racionais, lógicos.

Esses princípios, dizem eles, regem todas as línguas. A partir desses princípios, definem a linguagem em geral e tratam as diferentes línguas como casos particulares dela. Produzem assim as chamadas gramáticas gerais e racionais.

Como eles consideram que a linguagem é regida por princípios gerais que são racionais, passam a exigir dos falantes clareza e precisão no uso da linguagem. Idéias claras e distintas devem ser expressas de forma precisa e transparente.

A gramática que constroem deve funcionar como uma máquina que possa separar automaticamente o que é válido e o que não é. Uma espécie de autômato, regido pela lógica.

O alvo que esses estudiosos querem atingir é a língua-ideal – língua universal, lógica, sem equívocos, sem ambigüidades, capaz de assegurar a unidade da comunicação do gênero humano.

Não é dificil reconhecer já aí o sonho do homem em ter o controle do mundo através das máquinas. Esse ideal, traduzido para a atualidade, é a língua metálica, a dos computadores, universal e sem “falhas”.

Há uma gramática que é tida como modelo por grande número de gramáticos do século XVII: é a Gramática de Port Royal, também chamada Gramática Geral e Racional (ou Razoada), dos franceses CI. Lancelot e A. Arnaud, (1690).

A contribuição talvez mais interessante dessas gramáticas gerais para a Lingüística foi justamente a de estabelecer princípios que não se prendiam à descrição de uma língua particular mas de pensar a linguagem em sua generalidade.

Um outro momento importante para a história da Lingüística, é o século XIX, o da Lingüística Histórica, com as gramáticas comparadas.

Este século tem movimentos, perspectivas e interesses bem diferentes do século XVII. Já não tem validade o ideal universal, e o que vai chamar a atenção dos que trabalham com a linguagem é o fato de que as línguas se transformam com o tempo. Não é mais a precisão, mas a mudança o que importa. É a época dos estudos históricos, em que se procura mostrar que a mudança das línguas não dependem da vontade dos homens, mas segue uma necessidade da própria língua, e tem uma regularidade, isto é, não se faz de qualquer jeito.

A figura mais expressiva da época é o alemão F. Bopp. A sua importância é tal que se considera que a data de nascimento da Lingüística Histórica é a da sua obra (1816) sobre o sistema da conjugação da língua sânscrita, comparada ao grego, ao latim, ao persa e ao germânico.

É no século XIX que se descobre a semelhaça entre a maior parte das línguas européias e o sânscrito. A esse conjunto de línguas se chamou línguas indo-européias.

Os indo-europeístas vão dizer que as semelhanças, que eles encontram, indicam que há parentesco entre essas línguas: elas são consideradas da mesma família, isto é, são vistas como transformações naturais de uma mesma língua de origem (o indo-europeu) à qual eles propõem que se chegue pelo método histórico-comparado. Por esse método, comparam-se as línguas, e se estabelecem correspondências, sobretudo gramaticais e sonoras.

O alvo visado, então, não é mais a língua ideal mas a língua-mãe. O ideal racionalista cede seu lugar ao ideal romântico: não se busca a perfeição, se busca a origem.

Essa língua de origem, o chamado indo-europeu, não é uma língua da qual se tenham documentos. É uma reconstrução teórica, um conceito. mas a vontade de reconstruir a língua-mãe é tal que chegam mesmo a escrever fábulas nessa língua.

A grande contribuição das gramáticas comparadas foi evidenciar que as mudanças são regulares, têm uma direção. Não são caóticas, como se pensava.

Podemos observar essa direção, essa regularidade da mudança se tomamos, por exemplo, hoje, um tipo de uso como se dá em “sordado” por “soldado”. Nessa posição, vemos que há possibilidade de mudança, de “l” em “r”, mas nunca temos um “l” se transformando em “p”, por exemplo.

No século XIX, para mostrar a regularidade, certos lingüístas históricos, os chamados neo-gramáticos, chegaram a enunciar leis para as mudanças na língua: as leis fonéticas, pelas quais eles procuravam explicar a evolução.

Eles construíram uma escrita própria para anotar as formas em sua evolução. Colocaram essas formas como matrizes para o conjunto de formas existentes nas línguas indo-européias, em relação à inexistente língua-mãe, o indo-europeu. Assim puderam identificar e organizar as formas dessa família de línguas.

Por essa escrita, podemos ver, por exemplo, que o espanhol “lluvia” e o português “chuva” são parentes, tendo evoluído da mesma palavra latina “pluviam”. Como encontramos ainda em espanhol “lleno” e em português “cheio” que derivam de “plenum”, podemos reconhecer uma regularidade na evolução: pl > ch (português) e pl > ll (em espanhol), onde o sinal > significa “transforma-se em”.

Ainda que a codificação dessas regularidades tenha sido o foco de muitas controvérsias, através delas os grmáticos chegaram a formas cada vez mais remotas das línguas, até reconstruírem formas supostas da hipotética língua de origem. Por exemplo, comparando, de um lado, o latim “centum”, o grego “eatov”, o antigo irlandês “cët”, o gótico “hund”, e de outro lado, o antigo hindu “satam” e o lituano “simtas”, eles reconstroem o indo-europeu” “kmto-m”, que corresponde ao português “cem”.

                                                                A CIÊNCIA DA LINGUAGEM E SUA ESCRITA

Essa escrita simbólica desenvolvida no século XIX dá uma contribuição decisiva para a edificação da Lingüística como ciência. Ao construir esta escrita, a gramática histórica se utiliza de símbolos para descrever a própria língua. é isto a metalinguagem: usar a linguagem para falar da própria linguagem. Toda ciência tem de ter uma metalinguagem, pela qual estabelece suas definições, conceitos, objetos e procedimentos de análise.

Há metalinguagens formais (que usam símbolos abstratos, como a física, por exemplo:  Vm = [(Sf –So)  :  (Tf – To)] e há metalinguagem não formais (que usam a linguagem ordinária, como a História, a Antropologia, as Ciências Humanas em Geral). A Lingüística, embora seja uma ciência humana, tem valorizado a metalinguagem formal (Exemplo: S –> SN + SV) como sua escrita própria. Isto lhe deu uma posição de destaque entre as ciências humanas.

As condições que tornaram possível – já nop século XIX – uma escrita científica formal para a Lingüística vão ser cada vez mais elaboradas. Com o lingüística americano Noam Chomsky, nos anos 50, a Lingüística chega a uma escrita formal rigorosa, integrável à teoria dos sistemas, da Matemática. Mas essa não é uma questão pacífica para os que refletem sobre a linguagem. Há partidários da formalização e os que consideram que ela deixa para fora os aspectos mais definidores da linguagem.

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