UM HOMEM SÁBIO

Era um homem de aparência curiosa, com uma calva enorme como a cúpula de uma igreja, rosto comparativamente muito pequeno, nariz redondo arrebitado e longa barba crêspa que não parecia pertencer a um rosto tão petulante. Sua fealdade era constante motivo de pilhérias entre seus amigos, a êle próprio cooperava para isso. Era um homem pobre e uma espécie de ocioso e canteiro de profissão, e trabalhava apenas o necessário para que a espôsa e os três filhos não morressem de fome. Preferia conversar. E como a mulher era lamurienta e usava a língua como um cocheiro enfurecido usa o chicote, êle gostava, acima tudo, de estar fora de casa.

Levantava-se de madrugada, comia às pressas uma refeição matinal de pão molhado em vinho, vestia uma túnica, atirava sôbre ela um manto de tecido grosseiro e partia em busca de uma loja ou um templo, a casa de um amigo, os banhos públicos ou de uma simples esquina familiar onde pudesse entabular alguma discussão. A cidade em que êle vivia fervilhava de discussões. A cidade era Atenas e o homem de quem estamos falando, SÓCRATES.

Não era apenas um tipo de aparência curiosa; tinha também idéias e maneiras curiosas, e apegava-se a elas com bondosa e magnética obstinação. Um dos seus amigos tinha perguntado ao oráculo de Delfos quem era o homem mais sábio de Atenas. Com assombro de todos a sacerdotiza mencionara aquêle vagabundo – Sócrates.

– O oráculo apontou-me como mais sábio dos atenienses – disse – porque êle sabe que eu sou o único que sabe que êle não sabe nada.

Essa atitude de humildade manhosa e um tanto malévola dava-lhe nos debates uma vantagem tremenda. Na realidade tornava-o uma espécie de praga. Fingindo ignorar as respostas, êle assoberbava as pessoas com perguntas, como um promotor público, levando-as a fazerem as confissões mais espantosas.

Sócrates era o evangelista do pensamento claro. Percorria as ruas de Atenas pregando a lógica… exatamente como, 400 anos mais tarde, Jesus iria pelas cidades da Palestina pregar o amor. E, como Jesus, sem nunca escrever uma palavra, exerceu no espírito dos seus contemporâneos uma influência que tôda uma biblioteca não poderia superar.

Dirigindo-se francamente ao mais preeminente cidadão, um grande orador ou quem fôsse, Sócrates perguntava-lhe se sabia realmente o que estava dizendo. Um eminente estadista, por exemplo, terminava um discurso patriótico com uma peroração sôbre a coragem, sôbre a glória de morrer pela pátria. Sócrates acercava-se dêle e dizia:

– Perdoe-me a intromissão, mas o que vem a ser para o senhor a coragem?

– Coragem é permanecermos no nosso pôsto em perigo! – respondia sêcamente o orador.

– Mas suponhamos que a boa estratégia exigisse a nossa retirada?

– retargüia Sócrates.

– Bem, isso é diferente. Está claro que, nesse caso, não haveria necessidade de permanecer no pôsto.

– Então coragem não é permanecer no nosso pôsto, nem retirar, não é verdade? Pergunto, então, que é coragem?

O orador franzia a testa:

– Confesso o meu embaraço …. Creio que realmente não sei…

– Eu tampouco – declarava Sócrates – mas será que se trata de algo que difere do uso da cabeça, pura e simplesmente? Isto é, fazer o que seja razoável, independente do perigo?

– Isso parece mais acertado – observava alguém entre a multidão.

E Sócrates voltava-se imediatamente para a voz.

– Cocordaremos, então, apenas para argumentar, é claro, pois é uma questão difícil, em que a coragem se resume em sólido bom senso? A coragem é presença de espírito. E o oposto, nesse caso, seria presença de emoção em tal intensidade que perturbaria a mente?

Sócrates sabia, pois o seu procedimento  frio e resoluto na batalha de Délio, tanto quanto a sua resistência física eram fatos amplamente conhecidos. E tinha a coragem moral também. Todos se lembravam de como êle, sòzinho, desafiara a histeria coletiva que se seguira à batalha naval das Arginusas, quando dez generais foram condenados à morte por não terem salvo soldados que se afogavam. Culpados ou não, insistira Sócrates, era uma injustiça julgar ou condenar homens em grupo.

A discussão acima foi imaginária em seus detalhes, mas serve para ilustrar a coisa essencial que fêz desse homem feio e encantadoramente persuasivo um momento decisivo na história da civilização. Êle ensinava que toda boa conduta era a conduta controlada pelo espírito, que todas as virtudes consistiam, no fundo, na predominância da razão sobre os sentimentos. Além de insistir na importãncia moral do pensamento claro. Sócrates deu o primeiro grande passo no sentido de ensinar os homens a fazê-lo. Introduziu a idéia de definir os têrmos. Êle costumava dizer: “Antes de começarmos a falar, vejamos de que é que estamos falando.” Isso certamente já fôra dito antes em conversações particulares, mas Sócrates fêz desse método um evangelho.

Durante três gerações antes de Sócrates os filósofos gregos haviam estudado a natureza e os astros, dando origem a uma esplêndida florescência intelectual a que chamamos ciência. Sócrates aplicou o método científico ao estudo da arte de viver.

Nos tempos de Sócrates o maravilhoso mundo das cidades-estados da Grécia e da cultura grega estendia-se em redor da Bacia Mediterrânea e atravês do Mar Negro, até à costa da Rússia. Navios mercantes gregos dominavam o comércio mediterrâneo. Sob a liderança da grande cidade comercial de Atenas, os gregos acabavam de derrotar os exércitos da Pérsia. Para Atenas acorreram, então, de tôdas as partes do mundo, artistas, poetas, cientistas e filósofos, estudantes e professôres. Homens ricos da longíngua Sicília mandavam os filhos seguir Sócrates em seus passeios e ouvir os seus argumentos peculiares. O velho filósofo recusava qualquer pagamento.

Todas as grandes escolas filosóficas que surgiram no mundo grego e, depois, no romano se diziam descendentes dêle. Platão foi seu discípulo, e Aristóteles foi discípulo de Platão. Ainda hoje vivemos na herança socrática.
Os ensinamentos de sócrates talves não houvessem impressionado tão profundamente o mundo se êle não tivesse morrido mártir desses ensinamentos. Parece estranho condenar um homem à morte por “introduzir definições gerais”. Contudo, se pensarmos bem no que essa nova técnica, obstinadamente levada às conclusões lógicas, pode fazer às crenças emocionais consagradas pelo tempo, não nos surpreenderá. Aos seus jovens e progressistas amigos, Sócrates parecia o mais manso dos homens, mas êle devia ser considerado um pernicioso fanático por milhares de pessoas antiquadas e até mesmo por muitos conservadores ponderados. Foram duas as acusações formais feitas contra Sócrates: êle não acreditava nos deuses reconhecidos pela cidade e “corrompia os jovens”.

Não se sabe exatamente o que queriam dizer os acusadores de Sócrates, mas o que é certo é que os moços o amavam e o seguiam. A sedução de novas idéias, o convite a pensar por si atraíam-nos para o mestre, mas os pais temiam que eles estivessem aprendendo doutrinas subversivas. Além disso, um dos seus discípulos, o impetuoso e incostante Alcibíades, tinha-se passado para o inimigo durante a guerra com Esparta. A culpa não era de Sócrates. Mas Atenas, na aflição da derrota, procurava bodes-expiatórios.

Sócrates foi julgado por tribunal popular de 501 cidadões e condenado à morte por uma maioria de apenas 60. É provável que, entre os que o condenaram, bem poucos acreditassem que êle seria morto. Tinha o privilégio, estabelecido em lei, de pleitear pena mais branda e exigir que os jurados se manifestassem sobre o seu apêlo. Se ele tivesse feito isso com humildade, lamentando-se e implorando como era de costume, mais de 30 juízes teriam certamente modificado o seu voto. Mas Sócrates fêz questão de ser racional nesse assunto.

– Uma das coisas em que acredito – disse êle aos discípulos que o visitaram na prisão, aconselhando-o fugir – é no reinado da lei. Bom cidadão, como eu tantas vezes vos tenho dito, é aquele que obedece às leis de sua cidade. As leis de Atenas condenaram-me à morte, e a inferência lógica é que, como bom cidadão, eu deva morrer.

Isso deve ter soado um tanto impertinente aos seus amigos ansiosos.

– Não é isso levar a inferência de definições umpouco longe demais? – protestaram êles?

Mas o velho manteve-se firme.

Platão descreveu a última noite de Sócrates no mundo no diálogo Fédon. Sócrates passou essa noite, como passara a maior parte das outras, discutindo filosofia com os seus jovens amigos. O tema foi: Haverá uma outra vida depois da morte?  Sócrates tendia a achar que sim, mas conservou o espírito aberto, ouvindo atentamente as objeções dos discípulos que eram de opinião contrária. Conservou o espírito frio até o último instante, não permitindo que suas emoções lhe influenciassem o pensamento. Embora devesse morrer dentro de horas, discutia desapaixonadamente sobre as probabilidades de uma vida futura.

Ao se aproximar a hora fatal, seus amigos reuniram-se à sua volta e preparam seus corações para ver o amdo mestre beber a taça de veneno. O próprio Sócrates a mandou buscar um pouco antes de o sol se pôr atrás das montanhas. Quando o carcereiro lhe apresentou a taça, disse-lhe em tom calmo e prático:

– Agora, você que entende dessas coisas, diga-me o que fazer.

– Beba a cicuta, depois levanta-se e passeie até sentir as pernas pesadas – disse o carcereiro. – Então, deite-se, e o torpor subirá para o coração.

Com absoluta frieza e determinação, Sócrates fêz como lhe foi ensinado, detendo-se apenas para censurar os amigos por estarem chorando e soluçando, como se êle não estivesse fazendo o que era sábio e correto. Seu último pensamento foi de uma pequena obrigação que havia esquecido. Afastando a coberta que lhe tinham pôsto sobre o rosto, disse:

– Crito, devo um galo a Esculápio… Providencie para que a dívida seja paga.

Depois fechou os olhos e tornou a cobrir o rosto e, quando Crito lhe perguntou se tinha outras recomendações finais a fazer, êle já não deu resposta.

“Tal foi o fim do nosso amigo que, de todos aquêles que temos conhecido, foi o mais justo e o mais sábio dos homens”, disse Platão, que descreveu esta cena de morte em linguagem inolvidável.

Esse post foi publicado em Educação. Bookmark o link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s